sábado, 12 de março de 2011

Dúvidas Inquietas

Dúvidas Inquietas 1
Qual o estado de saúde mental de dois valentes polícias, que juntamente com mais quatro, agridem um preso indefeso tendo um gravado no capacete uma caveira e o outro no escudo uma imagem do Hulk?

Dúvidas Inquietas 2
Qual a semelhança entre a Alemanha, que demite um ministro por plágio numa tese de doutoramento e Portugal que tem um Primeiro-Ministro “licenciado” ao Domingo?

Dúvidas Inquietas 3
Qual o adjectivo a utilizar para José Sócrates quando considera as reivindicações dos desempregados e precários “brincadeira de Carnaval” “que ninguém leva a mal”, depois de mandar dispersar, pela violência, um grupo de jovens?

Dúvidas Inquietas 4
Qual o nível de credibilidade do “camarada ditador” José Eduardo dos Santos e do seu governo cleptómano, quando perante uma não manifestação prendem 17 cidadãos?

Dúvidas Inquietas 5
Qual será a vontade do José português, perante a manifestação de 12 de Março, depois de ver o que fez o seu amigo José angolano, perante uma não manifestação?

Victor Cláudio

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cavaquinho

O cavaquinho é semelhante a uma viola ou guitarra pequena. Como é mais pequeno também tem menos cordas, quatro, a sua sonoridade é bastante aguda. Em regra não sobrevive melodicamente sozinho, algumas excepções como as de Júlio Pereira, não contradizem o mais comum, necessita de outros instrumentos para poder acompanhar.
O cavaquinho desta história, embora com particularidades que já falaremos, não fugia ao genérico, sozinho não tinha sonoridade que atraísse alguém, sendo que era particularmente limitado já que só conseguia acompanhar o baile mandado. Era dócil no acompanhamento quando mandado, até para conseguir a licença de actuação, que se pedia na velha polícia, consta que deu as informações pedidas e acrescentou as que ninguém o obrigava. No oposto era intolerante e agressivo quando assumia o papel de mandante. 
Para este cavaquinho o hábito de os instrumentos de tempos a tempos se juntarem para eleger aquele que os representava em actuações, era profundamente desnecessário. Considerava-se o instrumento indicado para tal tarefa e como era profundamente inculto, nem sabia que no seu espaço instrumental existiu um instrumento, que entre outros dotes, escrevia de forma tão brilhante que foi reconhecido e premiado por todo o universo de instrumentos, tinha sérias dificuldades em expressar alguma ideia, tocando sempre o mesmo ritmo e sem conseguir o mínimo improviso.
Mas no espaço instrumental muitos tinham medo das novas pautas e precisavam de um instrumento guia, ainda que fosse apenas um cavaquinho de reduzida arte e menos engenho. Assim, num frio dia de tempos gélidos provocados pelos ventos cortantes da ganância, lá foi o intolerante cavaquinho eleito. Na verdade só vinte e cinco por cento dos instrumentos o votaram, os mais tristes, resignados e desinteressantes, mas lá foi conduzido a chefe dos instrumentos.
Logo o cavaquinho quis fazer, com as suas reduzidas capacidades, uma actuação histórica. Pobre cavaquinho, só se ouviu o som desafinado da intolerância e como não sabia bem qual o significado das notas, pela sua recusa em ler e aprender, repetia pautas de outros sem saber os tempos e os modos. Só se lhe ouvia o agressivo som de calúnia, infâmia mentiras e insinuações. Os que agora rodeavam o cavaquinho mandante não se deram ao trabalho, será que sabiam? de lhe explicar o significado destas notas. Na verdade é apenas uma nota, que a falta de outras saber, o cavaquinho repetiu. A nota preconizava que outros instrumentos o acusavam de coisas falsas que atacavam a sua honra. Esqueceu o cavaquinho que para essa nota existir é necessária ser demonstrada, e todos os instrumentos sabiam que não estava explicado como dando uma corda lhe devolviam cento e quarenta e como foi que arranjou um estojo novo para o guardar nas férias.
Pobres instrumentos que têm este cavaquinho mandante. Talvez um dia a tristeza seja substituída pela alegria de se ouvir um sem número de notas improvisadas e harmoniosas produzidas por uma infinidade de instrumentos.
Sim, sim. Pois, pois....
Se assim não sentir como suporto o triste fado do baile mandado?



 Victor Cláudio

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Aníbal, O Cavaco e o Silva

O sobressalto com que tentei atender o telefone, dificultou, até quase impossibilitar a tarefa, já que no primeiro movimento, o repentino acordar ainda não tinha permitido a ligação neuronal que permite uma eficaz oponibilidade do polegar e assim em vez de aproximar aquele horrível objecto estridente afastei-o e estatelei-o no chão. Lá consegui, numa posição que faria inveja a um contorcionista, dizer “sim?”. Uma voz séria apresentou desculpas pela hora, o que fez me imaginar que deveria ser no mínimo imprópria, mas lá respondi o que não sentia “não tem problema, quem fala?”. “Sou aquele que um dia dirigi um jornal e que mantém em permanência, desde o derrube da estátua do Saddam, uma lágrima ao canto do olho”. Aqui, já com as sinapses na totalidade, dentro do que cabe e a perplexidade no máximo: “O que deseja meu caro senhor lacrimoso?”. “Tenho uma informação que não me deixa ter descanso e sinto que se partilhar com alguém talvez a coisa acalme e finalmente consiga dormir”. Só me ocorreu “O senhor acorda-me para eu lhe servir de Valium?” “Por favor, ouça-me. Foi esquecida uma escuta no Palácio de Belém. Eu sou fiel depositário do código de acesso, desde há uns dias ela está activa em horas em que não é usual, é o caso neste momento, o que não é normal a esta hora, aliás anteriormente nunca acontecia, o Sr. Presidente dorme cedo, por isso estou muito preocupado. “Já irritado disse “Por que raio não ouve o que tem para ouvir e me deixa em paz?”. Com a voz embargada “Não sou capaz de ouvir o Sr. Presidente sem chorar copiosamente e escrever pelo menos vinte editoriais de elogios. Com o meu crónico problema da lágrima, que me impede de choros mais abundantes e como ninguém me publica nem sequer um editorial, só uma crónica por semana, a angústia que sentiria seria pior do que a preocupação que sinto. Por favor, accione a escuta, ouça o que se passa e diga-me. Seja solidário, já nem me lembro ao tempo que não utilizava esta palavra”.

Com a estranha sensação de ter que ser coscuvilheiro para poder retornar ao que é apanágio dos justos, verdade que logo bani a ambivalência, mesmo que não pertença à equipa dos justos quero mesmo voltar a dormir. “Está bem homem, mas coloco uma condição, só me volta a telefonar quando o Saddam voltar ao poder. Combinado? “. Lá ouço um murmúrio lacrimoso, “para poder descansar prometo tudo”.
Introduzi a codificação e com inverosímeis ruídos lá ouvi a inconfundível voz.
“Mas eu já disse que tinham de nascer duas vezes para serem mais honestos do que eu.”
A mesma voz com outra tonalidade “Mas Sr. Presidente Cavaco, eles continuam a insistir, o que acha que eu devo fazer?”. A minha perplexidade cresceu, então não é que o homem está a falar sozinho... 
Lá continuei a ouvir: “Perceba bem candidato Aníbal, não se responde a essas coisas. Você deve continuar a dizer que não é político e que não alimenta essas campanhas. Diga que ao contrário de mim vai fazer uma presidência activa, que pode ser demonstrada desde já no veto ao diploma sobre os transexuais. “. De novo muda a tonalidade “Mas Sr. Presidente Cavaco quem vetou o diploma foi o Sr. não fui eu”. No primeiro tom “Candidato Aníbal parece parvo, então não percebeu que foi você. Eu aprovei o diploma do casamento dos homossexuais”.
“Sr. Presidente Cavaco, mas isso ainda não é tão preocupante, o problema está no negócio das acções e esse foi seu e agora sobra para mim”.
A mesma voz muito irritada “Candidato Aníbal perceba de uma vez que esse negócio não foi feito por si nem por mim, foi pelo cidadão que eu sou, já que não sou político”.
A mesma voz muito receosa “Mas Sr. Presidente Cavaco, o homem que dirigia o Banco foi membro da Comissão da sua campanha, foi seu Secretário de Estado. O outro que também estava no Banco foi seu Ministro e convidado por si para o Conselho de Estado…”. Ouve-se um grito “Candidato Aníbal já lhe disse que eu nunca tive Ministros ou Secretários de Estado isso é para o Primeiro-Ministro e eu nunca fui isso, não percebe que eu não sou político”.

A voz muito titubeante “Mas Sr. Presidente Cavaco, o Sr. foi Presidente do PSD, não se lembra quando foi fazer a rodagem ao carro e parou na Figueira? Depois nos anos 80 e 90 foi PM, sem maioria e com maioria. Não se recorda, era no tempo em que não lia jornais, raramente tinha dúvidas e nunca se enganava? A voz vociferando “Candidato Aníbal como se pode ser tão incompetente, quantas vezes já lhe expliquei que esse não fui eu? Mais uma vez lhe repito que foi o Primeiro Silva”. Nesta altura ouço a mesma voz com uma tonalidade diferente das duas anteriores. “É verdade Candidato Aníbal, fui eu que tive a presidência do partido e fui PM. Não tenho nada a ver com o Presidente Cavaco. Mas concordo consigo Candidato Aníbal que é um problema para si o negócio das acções. Mas também isso é feito pelos jornais, por isso é que eu não os lia. Só dizia para me deixarem trabalhar. Onde já se viu tanto alarido por causa de um investimento bem feito. Provavelmente o Presidente Cavaco foi aconselhado pelo brilhante Prof. Aníbal Cavaco Silva.” Lá ouço a primeira tonalidade de voz, agora bastante mais calmo. “É verdade Primeiro Silva, fui de facto aconselhado, mas enquanto cidadão, porque eu não sou político”.
“Pois, pois, vocês os dois estão à vontade porque não tiveram de ir aos debates e não têm de aturar os jornalistas a fazer sempre a mesma pergunta. Eu, o Candidato Aníbal é que tenho de dar a cara. Ainda por cima nem percebo porque é que um negócio com um lucro de 140% pode ser alguma coisa estranha. Vocês devem julgar que eu sou economista como o Prof. Aníbal Cavaco Silva. Eu, tal como o Presidente Cavaco e o Primeiro Silva, também não sou político, sou apenas o Candidato ao mais alto cargo político de Portugal”.

Nesta altura ouvi um barulho imenso, de coisas a cair, um grande estrondo e depois silêncio. Passados alguns minutos ouvi uma voz feminina gritar “O que te aconteceu Aníbal? Porque estás caído Cavaco? Anda levanta-te Silva? Sentes-te mal Aníbal Cavaco Silva?”.
Ouvi um estridente barulho, dei um salto e acordei com a boca a saber a pesadelo real.   


Victor Cláudio