O sobressalto com que tentei atender o telefone, dificultou, até quase impossibilitar a tarefa, já que no primeiro movimento, o repentino acordar ainda não tinha permitido a ligação neuronal que permite uma eficaz oponibilidade do polegar e assim em vez de aproximar aquele horrível objecto estridente afastei-o e estatelei-o no chão. Lá consegui, numa posição que faria inveja a um contorcionista, dizer “sim?”. Uma voz séria apresentou desculpas pela hora, o que fez me imaginar que deveria ser no mínimo imprópria, mas lá respondi o que não sentia “não tem problema, quem fala?”. “Sou aquele que um dia dirigi um jornal e que mantém em permanência, desde o derrube da estátua do Saddam, uma lágrima ao canto do olho”. Aqui, já com as sinapses na totalidade, dentro do que cabe e a perplexidade no máximo: “O que deseja meu caro senhor lacrimoso?”. “Tenho uma informação que não me deixa ter descanso e sinto que se partilhar com alguém talvez a coisa acalme e finalmente consiga dormir”. Só me ocorreu “O senhor acorda-me para eu lhe servir de Valium?” “Por favor, ouça-me. Foi esquecida uma escuta no Palácio de Belém. Eu sou fiel depositário do código de acesso, desde há uns dias ela está activa em horas em que não é usual, é o caso neste momento, o que não é normal a esta hora, aliás anteriormente nunca acontecia, o Sr. Presidente dorme cedo, por isso estou muito preocupado. “Já irritado disse “Por que raio não ouve o que tem para ouvir e me deixa em paz?”. Com a voz embargada “Não sou capaz de ouvir o Sr. Presidente sem chorar copiosamente e escrever pelo menos vinte editoriais de elogios. Com o meu crónico problema da lágrima, que me impede de choros mais abundantes e como ninguém me publica nem sequer um editorial, só uma crónica por semana, a angústia que sentiria seria pior do que a preocupação que sinto. Por favor, accione a escuta, ouça o que se passa e diga-me. Seja solidário, já nem me lembro ao tempo que não utilizava esta palavra”.
Com a estranha sensação de ter que ser coscuvilheiro para poder retornar ao que é apanágio dos justos, verdade que logo bani a ambivalência, mesmo que não pertença à equipa dos justos quero mesmo voltar a dormir. “Está bem homem, mas coloco uma condição, só me volta a telefonar quando o Saddam voltar ao poder. Combinado? “. Lá ouço um murmúrio lacrimoso, “para poder descansar prometo tudo”.
Introduzi a codificação e com inverosímeis ruídos lá ouvi a inconfundível voz.
“Mas eu já disse que tinham de nascer duas vezes para serem mais honestos do que eu.”
A mesma voz com outra tonalidade “Mas Sr. Presidente Cavaco, eles continuam a insistir, o que acha que eu devo fazer?”. A minha perplexidade cresceu, então não é que o homem está a falar sozinho...
Lá continuei a ouvir: “Perceba bem candidato Aníbal, não se responde a essas coisas. Você deve continuar a dizer que não é político e que não alimenta essas campanhas. Diga que ao contrário de mim vai fazer uma presidência activa, que pode ser demonstrada desde já no veto ao diploma sobre os transexuais. “. De novo muda a tonalidade “Mas Sr. Presidente Cavaco quem vetou o diploma foi o Sr. não fui eu”. No primeiro tom “Candidato Aníbal parece parvo, então não percebeu que foi você. Eu aprovei o diploma do casamento dos homossexuais”.
“Sr. Presidente Cavaco, mas isso ainda não é tão preocupante, o problema está no negócio das acções e esse foi seu e agora sobra para mim”.
A mesma voz muito irritada “Candidato Aníbal perceba de uma vez que esse negócio não foi feito por si nem por mim, foi pelo cidadão que eu sou, já que não sou político”.
A mesma voz muito receosa “Mas Sr. Presidente Cavaco, o homem que dirigia o Banco foi membro da Comissão da sua campanha, foi seu Secretário de Estado. O outro que também estava no Banco foi seu Ministro e convidado por si para o Conselho de Estado…”. Ouve-se um grito “Candidato Aníbal já lhe disse que eu nunca tive Ministros ou Secretários de Estado isso é para o Primeiro-Ministro e eu nunca fui isso, não percebe que eu não sou político”.
A voz muito titubeante “Mas Sr. Presidente Cavaco, o Sr. foi Presidente do PSD, não se lembra quando foi fazer a rodagem ao carro e parou na Figueira? Depois nos anos 80 e 90 foi PM, sem maioria e com maioria. Não se recorda, era no tempo em que não lia jornais, raramente tinha dúvidas e nunca se enganava? A voz vociferando “Candidato Aníbal como se pode ser tão incompetente, quantas vezes já lhe expliquei que esse não fui eu? Mais uma vez lhe repito que foi o Primeiro Silva”. Nesta altura ouço a mesma voz com uma tonalidade diferente das duas anteriores. “É verdade Candidato Aníbal, fui eu que tive a presidência do partido e fui PM. Não tenho nada a ver com o Presidente Cavaco. Mas concordo consigo Candidato Aníbal que é um problema para si o negócio das acções. Mas também isso é feito pelos jornais, por isso é que eu não os lia. Só dizia para me deixarem trabalhar. Onde já se viu tanto alarido por causa de um investimento bem feito. Provavelmente o Presidente Cavaco foi aconselhado pelo brilhante Prof. Aníbal Cavaco Silva.” Lá ouço a primeira tonalidade de voz, agora bastante mais calmo. “É verdade Primeiro Silva, fui de facto aconselhado, mas enquanto cidadão, porque eu não sou político”.
“Pois, pois, vocês os dois estão à vontade porque não tiveram de ir aos debates e não têm de aturar os jornalistas a fazer sempre a mesma pergunta. Eu, o Candidato Aníbal é que tenho de dar a cara. Ainda por cima nem percebo porque é que um negócio com um lucro de 140% pode ser alguma coisa estranha. Vocês devem julgar que eu sou economista como o Prof. Aníbal Cavaco Silva. Eu, tal como o Presidente Cavaco e o Primeiro Silva, também não sou político, sou apenas o Candidato ao mais alto cargo político de Portugal”.
Nesta altura ouvi um barulho imenso, de coisas a cair, um grande estrondo e depois silêncio. Passados alguns minutos ouvi uma voz feminina gritar “O que te aconteceu Aníbal? Porque estás caído Cavaco? Anda levanta-te Silva? Sentes-te mal Aníbal Cavaco Silva?”.
Ouvi um estridente barulho, dei um salto e acordei com a boca a saber a pesadelo real.
Victor Cláudio
Viva a inquietação. A inquietação que nos faz ouvir ao lado e olhar em redor. A inquietação que nos livra dos dogmas, das certezas imutáveis , das soluções perfeitas.A inquietação que nos obriga a pensar , a reflectir , a questionar e mudar de rumo se necessário for. Finalmente a inquietação que nos permite escolher caminhos para tornar este mundo mais justo , mais solidário, mais fraterno.Quero minhas as vossas inquietações.
ResponderEliminarGrande escolha Amigos .Parabéns , bem vindos !
Sobre o bolorento de boliqueime , excelente texto.
ResponderEliminarSó mudaria o titulo para Heterónimos de um Charlatão.Só não gostei que me lembrasses que os 140% de lucro dele saíram diretamente dos nossos impostos.Abraço Grande.
E agora só para brincar :
Este texto e o texto anterior foram escritos ao abrigo do Acordo de Cidadania celebrado com Portugal e com o Mundo.