domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cavaquinho

O cavaquinho é semelhante a uma viola ou guitarra pequena. Como é mais pequeno também tem menos cordas, quatro, a sua sonoridade é bastante aguda. Em regra não sobrevive melodicamente sozinho, algumas excepções como as de Júlio Pereira, não contradizem o mais comum, necessita de outros instrumentos para poder acompanhar.
O cavaquinho desta história, embora com particularidades que já falaremos, não fugia ao genérico, sozinho não tinha sonoridade que atraísse alguém, sendo que era particularmente limitado já que só conseguia acompanhar o baile mandado. Era dócil no acompanhamento quando mandado, até para conseguir a licença de actuação, que se pedia na velha polícia, consta que deu as informações pedidas e acrescentou as que ninguém o obrigava. No oposto era intolerante e agressivo quando assumia o papel de mandante. 
Para este cavaquinho o hábito de os instrumentos de tempos a tempos se juntarem para eleger aquele que os representava em actuações, era profundamente desnecessário. Considerava-se o instrumento indicado para tal tarefa e como era profundamente inculto, nem sabia que no seu espaço instrumental existiu um instrumento, que entre outros dotes, escrevia de forma tão brilhante que foi reconhecido e premiado por todo o universo de instrumentos, tinha sérias dificuldades em expressar alguma ideia, tocando sempre o mesmo ritmo e sem conseguir o mínimo improviso.
Mas no espaço instrumental muitos tinham medo das novas pautas e precisavam de um instrumento guia, ainda que fosse apenas um cavaquinho de reduzida arte e menos engenho. Assim, num frio dia de tempos gélidos provocados pelos ventos cortantes da ganância, lá foi o intolerante cavaquinho eleito. Na verdade só vinte e cinco por cento dos instrumentos o votaram, os mais tristes, resignados e desinteressantes, mas lá foi conduzido a chefe dos instrumentos.
Logo o cavaquinho quis fazer, com as suas reduzidas capacidades, uma actuação histórica. Pobre cavaquinho, só se ouviu o som desafinado da intolerância e como não sabia bem qual o significado das notas, pela sua recusa em ler e aprender, repetia pautas de outros sem saber os tempos e os modos. Só se lhe ouvia o agressivo som de calúnia, infâmia mentiras e insinuações. Os que agora rodeavam o cavaquinho mandante não se deram ao trabalho, será que sabiam? de lhe explicar o significado destas notas. Na verdade é apenas uma nota, que a falta de outras saber, o cavaquinho repetiu. A nota preconizava que outros instrumentos o acusavam de coisas falsas que atacavam a sua honra. Esqueceu o cavaquinho que para essa nota existir é necessária ser demonstrada, e todos os instrumentos sabiam que não estava explicado como dando uma corda lhe devolviam cento e quarenta e como foi que arranjou um estojo novo para o guardar nas férias.
Pobres instrumentos que têm este cavaquinho mandante. Talvez um dia a tristeza seja substituída pela alegria de se ouvir um sem número de notas improvisadas e harmoniosas produzidas por uma infinidade de instrumentos.
Sim, sim. Pois, pois....
Se assim não sentir como suporto o triste fado do baile mandado?



 Victor Cláudio

1 comentário:

  1. A culpa maior é do Maestro que não tem memória e insiste em usar uma pauta já muito usada.
    Se eu nascesse 2 vezes , usaria esta primeira vida para encostar o cavaquinho ás cordas , partir-lhe as teclas todas , abafà-lo até ao último sopro , mesmo sabendo da re percussão que isso teria.

    ResponderEliminar